
Estreitar e fortalecer os laços de amizade que sempre aproximaram o Pará da Venezuela. Esse era o objetivo inicial da visita do presidente Hugo Chávez a Belém, nesta quinta-feira (27). Mas a autoridade máxima da Venezuela propôs à governadora Ana Júlia Carepa, secretários de Estado, autoridades do Legislativo e do Judiciário, e representantes dos movimentos sociais, presentes no Hangar – Centro de Convenções, a união que dará forças à América do Sul para libertação do imperialismo e a criação de uma grande pátria, a partir da integração dos países do continente.
“A verdadeira pátria temos que construí-la. Nenhum país, por si só, pode lográ-la. O processo prévio e paralelo para nossa libertação é a unidade do nosso potencial. Não se trata de intercâmbio comercial, começa-se como no amor, pelo coração e alma, como vim fazer aqui. Com amor pelo povo de Belém, do Pará, da Amazônia, do Brasil”, afirmou o presidente. Chávez e a governadora assinaram uma declaração conjunta em que ratificam compromissos assumidos durante encontro presidencial em Caracas, em dezembro do ano passado, e na Declaração de Recife, subscrita na última quarta-feira (26), sobre a situação social e econômica das populações venezuelana e brasileira.
A declaração reúne ações conjuntas dos dois governos dentro do espírito da aliança estratégica para eliminar a pobreza e do espírito solidário para o fomento e desenvolvimento sustentável das nações. “O socialismo é um caminho a se seguir para termos uma política livre. É uma luta para toda vida. Tudo o que fazemos é para os meninos e as meninas, menores ou de 15 e 18 anos. O futuro é deles e não vamos deixar que o roubem como fizeram conosco. Somos lutadores hoje pela pátria, porque não tivemos pátria”, acrescentou Chávez, ressaltando que se vive a melhor oportunidade para libertação da América do Sul.
No auditório principal do Hangar, a primeira saudação ao presidente foi feita por Maria Raimunda César de Souza, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), que fez a leitura da carta dos povos da Amazônia paraense ao venezuelano. “Nós, movimentos sociais de camponeses, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, GLBT, sindicalistas, mulheres e negros, nos solidarizamos com a revolução bolivariana em pulso, uma nova esperança de soberania dos povos e de libertação do neoliberalismo, de combate às oligarquias nacionais e imperialismo, com foco numa política de inversão de prioridades”, afirmou a trabalhadora.
Na carta, os movimentos sociais sugerem o uso racional dos recursos naturais, a erradicação do analfabetismo, a democratização da comunicação e apoio às rádios comunitárias. “A resistência do povo venezuelano nos anima e fortalece para luta dos Direitos Humanos na América Latina”, enalteceu Maria Raimunda. Para ela, a região pan-amazônica é estratégica para a responsabilidade socioambiental mundial, e justifica a realização da oitava edição do Fórum Social Mundial, em janeiro de 2009. “Em Belém, vem sendo construído um processo de protagonismo dos povos da Pan-Amazônia no sentido de reverberar suas lutas. Temos a convicção do apoio venezuelano para concretização do Fórum. Como diz o poeta: o sonho se faz à mão e sem permissão. Não precisamos de permissão para materializar o sonho”, convocou.
Ações conjuntas - Para Chávez, é necessário transitar das palavras para as atitudes. Uma de suas propostas é implantar no Pará – assim como sugeriu aos governadores do Maranhão e Pernambuco, Estados que também visitou - o projeto piloto do método cubano de educação, que ajudou a Venezuela ser um país livre do analfabetismo, em dois anos. Nesse período, foram alfabetizados 1,5 milhão de venezuelanos. “No Maranhão, 25% de analfabetismo é um índice muito alto, significa que de cada 100 habitantes, 25 não sabem ler ou escrever. Assim, o Estado não pode alçar mais porque é um de seus flagelos mais graves”. De acordo com ele, somente serão grandes nações se investirem em educação.
Outro tema abordado pelo presidente foi a saúde. Chávez citou Cuba mais uma vez como exemplo. Segundo ele, o país tem o índice de mortalidade mais baixo do continente. Cinco em cada mil cubanos morrem antes de completar um ano de vida. Na Venezuela era 25 para mil, hoje são 13 para mil. “Na América Latina, há países com uma proporção de 40, 50 mortos para cada mil habitantes, e muitos morrem por falta de atenção prévia no parto (pré-natal, no Brasil)”, informou.
Na área econômica, o presidente convidou o Pará a implantar siderúrgicas para beneficiamento de seus minérios. “Não para sair pelo Atlântico em grandes barcas, mas para processarmos as riquezas aqui, e não vender apenas como matéria-prima. Queremos vender plataformas, partes de veículos, maquinário agrícola e o que mais precisarem. Vamos desenvolver a indústria, a tecnologia para aproveitar a bauxita, a alumina e o alumínio que temos”, afirmou. Ele sugeriu ainda a construção do gasoduto para transferência de gás natural da Venezuela ao Pará, Amazonas e Pernambuco, “uma energia mais barata. Não estamos mais dependendo do norte, abraçamos nossa pátria com refinarias (de petróleo) em Nicarágua, Argentina, Jamaica”, completou. A Venezuela possui a primeira reserva de petróleo do mundo.
Parcerias - “Quando falamos de solidariedade na política parece a muitos uma mentira. Como se o exercício da cidadania, da política, só comportasse a exploração, a submissão, a ganância e a servidão. Saudamos o seu protagonismos, presidente, quando se une aos novos mecanismos de parcerias e solidariedades latino-americanas, em substituição aos impérios e esquemas organizacionais que nos impuseram o capitalismo selvagem ou o neoliberalismo improdutivo”, saudou a governadora. Ana Júlia Carepa frisou que o Pará está em sintonia com o presidente do Brasil, quando escolheu o caminho da integração e da solidariedade e com a América Latina.
Ela lembrou que em dezembro de 2007 estiveram reunidos em Belém governadores e autoridades de toda a América do Sul, na chamada Frente Norte do Mercosul, quando foi aprovada a criação do Fala (Fórum de Autoridades Locais da Amazônia) ratificado pelo Comitê dos Governadores do Fórum Consultivo do Mercosul, coordenado pela governadora. “Esperamos ser um espaço amazônico do diálogo, parceria e entendimento de nossas cidades e municípios. É a cooperação para o desenvolvimento, a cooperação contra pobreza”, reforçou. Ela lembrou inda que o Fórum Social Mundial, em janeiro de 2009, será um ambiente de expressão de todos que acreditam que outro mundo é possível.
Ana Júlia Carepa elencou algumas ações do governo no sentido de revalorização da ação do Estado, como expressão do poder popular e da democracia participativa, dentre elas o processo democrático do Planejamento Territorial Participativo, quando a equipe de secretários e dirigentes dos órgãos estaduais estiveram nos 143 municípios do Pará, discutindo com a população as prioridades de investimentos no Estado. “A nova geometria do poder, proposta pelo presidente Chávez, que descentraliza o poder e instala a auto-gestão, nos faz perceber que não estamos sós, ao contrário, juntos com aqueles que, após cinco séculos de resistência, não mais aceitam esperar pelo futuro”, enalteceu.
Segundo a governadora, no Pará, “Estado continente e síntese de todos os desafios amazônicos” está sendo construído um novo modelo de desenvolvimento - sustentável em suas dimensões sociais, econômicas e ecológicas. “Em apenas um ano, temos um governo que promove a inclusão social para todas e todas. Um governo centrado no uso legal e sustentável dos recursos naturais, na inovação tecnológica e na preservação ambiental”, afirmou. A mudança começou, de acordo com ela, com o combate às mazelas. Dentre os marcos da mudança, destacou o Bolsa Trabalho, que vai atender 120 mil jovens até 2010. “Um programa que, segundo o Banco Mundial, é o maior programa de inclusão produtiva de jovens no mercado de trabalho em toda a América Latina”, enfatizou.
A governadora sinalizou a vontade do governo do Estado de se integrar aos países amazônicos, com políticas de desenvolvimento que tenham como conseqüência a melhoria da qualidade de vida para toda população. “No nosso projeto de governo, os parques de ciência e tecnologia também serão realidades. Vamos exportar não apenas a matéria-prima, mas principalmente a nossa matéria-prima com valor agregado, como produto industrializado, gerando riqueza e distribuindo renda nosso Estado na nossa região”, disse. O empenho é transformar o Pará numa terra de riquezas e direitos. Com a assinatura da declaração pelos dois governantes, será criado um grupo de trabalho formado pelos secretários de Estado e os ministros para desenvolver os projetos.
Texto e Fonte: Fabíola Batista – Secom - Agência Pará
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